O que pode acabar com a alta nos mercados?

Fonte: XP Investimentos | Fernando Ferreira | XP Expert

Sabe aquele momento em que você está no ápice de uma festa, em que todos a sua volta estão com o nível de felicidade máximo, e você começa a desejar que aquela festa não acabe nunca?

Pois bem, nesse momento é muito provável que a festa já esteja mais próxima de terminar do que de começar. A pergunta que muitos investidores nos fazem hoje é se estamos próximos desse momento “de fim de festa” nos mercados ou não?

Desde o início de Novembro, os mercados globais estão em um forte movimento de alta. O índice Ibovespa subiu 25% no período, e em Janeiro o ano também começou seguindo o movimento de alta, mas retrocedeu nas últimas semanas, com o atraso na vacinação. O índice MSCI Global subiu +21% no período, e +3,16% em Janeiro.

Não achamos que estejamos nesse ponto de “fim de festa”, e seguimos com uma visão construtiva para preços de ativos em 2021. Porém. nesse relatório iremos explorar quais os riscos principais adiante que iremos monitorar.

1) A 1a razão para cautela é puramente matemática

A alta do Ibovespa de Novembro até aqui, caso seja anualizada – ou seja, caso se mantenha no mesmo ritmo em um período de 12 meses completos – representaria uma alta de 220%, o que é bastante improvável. A alta do MSCI World de Novembro até aqui representaria uma alta de 128% em 12 meses. Ou seja, espere volatilidade à frente, e lembre-se que os mercados não se movem em linha reta!

2) Juros e inflação – o elefante na sala

A forte alta nos preços dos ativos de risco desde Março (como Bolsas, Commodities e Criptomoedas) está diretamente relacionada com as largas intervenções de Bancos Centrais e governos no mundo. Já são mais de US$25 trilhões anunciados entre expansão fiscal e monetária, o que representa impressionantes 28% do PIB Global e 24% do valor de mercado de todas as ações no mundo. O valor de mercado do mercado de ações subiu US$44 trilhões desde Março, e pode-se dizer que uma boa parte está relacionada às injeções de liquidez dos Bancos Centrais. Alguns economistas esperam mais US$5 trilhões em injeção por Bancos Centrais em 2021, além do pacote de quase US$2 trilhões anunciado pelo novo governo de Joe Biden, que ainda tem que ser aprovado, e outros pacotes fiscais ao redor do mundo. Conclusão: a liquidez global seguirá elevada em 2021.

Por outro lado, algo novo começou a ocorrer nos mercados. A expectativa de inflação voltou a subir nos países desenvolvidos. O consenso de mercado espera que o CPI nos EUA (Índice de Preços ao Consumidor) suba +2,0% em 2021, de +1,2% em 2020, e já se aproximando da meta do Federal Reserve. Além disso, a expectativa de inflação embutida nos títulos do Tesouro Americano de longo prazo também voltou a subir para acima de 2% recentemente.

Com isso, os juros dos títulos de 10 anos do governo americano também subiram, chegando a 1,1% em Janeiro. Os títulos mais curtos ainda não subiram, e se mantém em patamar baixo, dado o discurso do Fed que não subirá os juros no futuro próximo. Porém, o risco é esse cenário se alterar, e termos uma possível volta mais rápida que o esperado da inflação, que leve os Bancos Centrais globais a voltarem a subir juros e tirarem os programas de injeção de liquidez nos mercados, via a compra de títulos (Quantitative Easing).

Fonte: Federal Reserve Bank of St. Louis

3) Superaquecimento dos mercados e da economia

O cenário de elevada liquidez global em um ano de forte recuperação econômica é potencialmente explosivo para preços de ativos. Com isso, mais investidores alertam e se preocupam com os riscos de formação de bolhas de preços, por conta do excesso de especulação e euforia nos mercados. Enquanto os preços sobem vertiginosamente, pouca gente se preocupa com as bolhas de preços, porém quando elas estouram, elas acabam por criar consequências sérias para os investidores e a economia. Muito se comenta de novas bolhas de preços nas ações de Tecnologia, no Bitcoin, nas ações da Tesla, e em outros ativos.

Um exemplo recente de extravagancia nos mercados foi quando o fundador da Tesla, Elon Musk, tweetou “Usem Signal” em referência ao novo aplicativo de troca de mensagens. Investidores correram para comprar rapidamente ações na Bolsa da empresa “Signal Advance”, que saltaram quase +12,000%. Acontece que essa não é a empresa que Musk se referia. Mesmo após o mal-entendido ter sido explicado, as ações ainda se mantiveram com c2,000% de alta em relação ao período anterior ao tweet.

Além disso, estamos vendo novos recordes de investidores americanos comprando opções de compra (Calls) nas ações americanas, em um claro sinal de aumento expressivo de tomada de risco e de euforia nos mercados. O risco de superaquecimento e formação de bolhas de preços existe, mas isso não quer dizer que você deva ficar de fora do mercado por isso. A melhor forma de proteger o seu patrimônio contra alta volatilidade é diversificando em vários ativos sólidos e com risco controlado na sua carteira (sem ou com pouca alavancagem). Tentar seguir a alta e comprar apenas os ativos que subiram mais de preço nos últimos meses, sem diversificação, pode ser a receita para o fracasso. 

4) Brasil – riscos domésticos incluem atraso na vacinação e fiscal

Por enquanto descrevemos apenas riscos globais, de aumento de juros e inflação, superaquecimento de preços e volatilidade. Porém, o cenário doméstico também carrega uma série de riscos. Entre eles, o principal atualmente é em relação ao atraso na vacinação e incerteza em relação ao cronograma de vacinação da população. Isso pode levar o Brasil a não conseguir controlar a pandemia em 2021, enquanto outros países já devam conseguir esse controle, com consequências diretas no ritmo de recuperação da economia, e mais vidas sendo perdidas.

Além da vacinação, ressaltamos os riscos fiscais do Brasil, que deverão continuar por muitos anos além de 2021. Em 2020 o Brasil elevou a sua relação Dívida Bruta sobre PIB acima de 90% por conta dos gastos extraordinários com a pandemia. Como mostramos no gráfico abaixo, a nossa projeção é que essa trajetória se mantenha elevada na próxima década, o que traz a discussão sobre os gastos do governo, tributação e, principalmente, reformas, para o centro do debate – e dos riscos – do país pelos próximos 10 anos.

Relação Dívida Bruta como % do PIB – Brasil

Fonte: XP Investimentos

Esperamos que a música siga tocando no mundo em 2021, mas lembre-se que os mercados nunca se movem em linha reta. Espere volatilidade à frente, o que é normal e traz oportunidades de investimento a preços atrativos.

As melhores recomendações nesse cenário são: Mantenha sua carteira diversificada em diferentes classes de ativos e permaneça investido. O caixa aplicado no CDI rende menos que a inflação hoje em dia. Portanto, manter uma grande parcela em caixa do seu patrimônio – além da Reserva de Emergência – irá levar a perda garantida de patrimônio.

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