Diversificação de investimentos: o que é e como testar a sua

A carteira que ninguém desenhou 

Existe uma conversa sobre diversificação de investimentos que se repete quase toda semana por aqui.

O investidor chega com o extrato aberto, um pouco orgulhoso e um pouco desconfiado. São doze, quinze linhas. Levou vinte anos para juntar aquilo, e o orgulho é justo. A pergunta costuma ser alguma variação de “está bom?”. 

Antes de responder, perguntamos outra coisa: por que você tem cada um desses? 

O silêncio que vem depois quase nunca é constrangimento, e sim reconhecimento. Porque a resposta honesta, na maioria das vezes, é que ninguém sabe mais. 

Um fundo veio do gerente do banco, em 2016, numa conversa de dez minutos. Três vieram do assessor que atendeu entre 2019 e 2022, quando aquela gestora aparecia em todas as listas. Dois entraram na euforia de 2021, quando ficar de fora parecia o erro. Um foi comprado sozinho, depois de uma reportagem. Outros dois vieram junto com a mudança de corretora. 

Ninguém desenhou essa carteira. Ela foi se acumulando, camada sobre camada, como sedimento. 

E o resultado tem uma característica traiçoeira: parece diversificado, mas se comporta como uma coisa só. 

Este texto não serve para dizer que você fez errado. Serve para dar um jeito simples de avaliar a diversificação de investimentos da sua carteira.


Resposta rápida 

Diversificação de investimentos é ter muitos produtos? Não. Diversificar é ter investimentos que se comportam de forma diferente na mesma situação. Quantidade não é diversificação de investimentos. 

Como sei se estou diversificado? A forma mais simoples é analisar um cálculo complicado encontrando a covariância. A forma simples e aproximada é classificar cada investimento pelo fator de risco que realmente manda nele (juro, crédito, bolsa, câmbio, imóvel) e some por fator. Se um único fator passar de 50% do total, você está concentrado, mesmo tendo vinte produtos. 

Qual o número ideal de investimentos? Não existe. O que importa é a quantidade de fatores de risco diferentes, não a de produtos. Dá para estar bem diversificado com cinco e mal diversificado com trinta. 

Por que isso importa? Porque uma carteira concentrada obriga você a vender no pior momento. E vender no pior momento é o que interrompe o processo que faz patrimônio crescer no tempo. 


Dicionário rápido 

Alguns termos aparecem em todo lugar e quase nunca são explicados. Vale ter estes à mão. 

Termo O que significa, em português claro 
Diversificação de investimentosEspalhar o dinheiro entre coisas que reagem de formas diferentes ao mesmo acontecimento. 
Correlação O quanto dois investimentos andam juntos. Correlação alta significa que sobem e caem ao mesmo tempo. Baixa significa que um pode subir enquanto o outro cai. 
Fator de risco A força que de fato manda no preço de um investimento: a taxa de juros, a bolsa, o dólar, ou a saúde financeira de quem pegou o dinheiro emprestado. 
Classe de ativo O grupo a que o investimento pertence: renda fixa, ações, imóveis, câmbio. 
Crédito privado Você empresta para uma empresa, e não para o governo ou para um banco grande. Rende mais porque o risco de não receber é maior. 
Multimercado Fundo que pode investir em várias coisas ao mesmo tempo. O nome não diz o que ele faz, o que dá trabalho na hora de classificar. 
Taxa de administração O que o gestor cobra por ano para cuidar do dinheiro, descontado direto da rentabilidade. Você nunca vê o boleto. 

O que é diversificação de investimentos, de verdade 

Diversificar é ter investimentos que reagem de formas diferentes ao mesmo acontecimento. Não tem nada a ver com quantos produtos você possui. 

Pense assim. 

Você acorda, olha o céu e resolve se preparar para o dia. Compra doze guarda-chuvas. 

Está preparado para o tempo? 

Se fizer sol, você tem doze objetos inúteis. Se fizer frio, também. O que faltava não era mais um guarda-chuva. Era um casaco e um protetor solar. 

Com uma carteira acontece a mesma coisa. Se você tem oito investimentos e todos caem juntos, no mesmo mês, pelo mesmo motivo, você não tem oito posições. Tem uma posição fatiada em oito, pagando oito taxas de administração. 

E aqui está o detalhe que quase ninguém percebe: dois investimentos com nomes completamente diferentes, gestoras diferentes e estratégias descritas de formas diferentes podem estar apostando exatamente na mesma coisa. 

No Brasil isso é quase automático. A maior parte do que se vende como investimento por aqui responde a um de dois motores: o juro brasileiro e a bolsa brasileira. 


Por que diversificação de investimentos importa mais em vinte anos do que em um 

Vale dizer com clareza para que serve tudo isso, porque a resposta usual é enganosa. 

Diversificação não existe para render mais. Numa boa parte dos anos, ela vai render menos do que a melhor coisa que você poderia ter escolhido. Isso é da natureza dela, não um defeito. 

Ela existe para que você consiga continuar

Patrimônio se constrói por permanência. Não por acertar o melhor ativo do ano, mas por deixar o dinheiro trabalhando por vinte, trinta anos sem interrupção. E a coisa que mais interrompe esse processo não é uma escolha ruim de produto. É a venda feita no meio de uma queda, quando o susto é grande demais para aguentar. 

Uma carteira concentrada torna essa venda muito mais provável, por dois caminhos. 

O primeiro é emocional. Quando tudo cai junto, e cai forte, a queda parece um veredito sobre você e sobre suas decisões. Uma carteira em que uma parte segura enquanto outra sofre produz um número menos assustador na tela, e número menos assustador é o que permite ficar quieto. 

O segundo é prático, e é o mais caro dos dois. Imprevistos não escolhem o momento. Se a necessidade de dinheiro aparece justo quando aquele único fator está no fundo do poço, você não tem de onde tirar sem realizar prejuízo. Quem tinha partes diferentes retira da que não está machucada e deixa a outra se recuperar. 

O Brasil oferece exemplos recentes disso. Em janeiro de 2023, o caso Americanas atingiu ao mesmo tempo fundos de crédito privado, debêntures e carteiras de renda fixa que pareciam não ter nada a ver umas com as outras. Mais recentemente, o colapso do conglomerado Banco Master mostrou que emissores diferentes podiam ser, na prática, o mesmo risco. 

Em nenhum dos dois casos o problema estava em uma linha isolada do extrato. Estava no conjunto, que ninguém tinha olhado. 


As quatro sobreposições mais comuns 

A repetição de risco acontece de quatro formas, e nenhuma delas é visível olhando o nome dos produtos. 

1. O mesmo ativo dentro de produtos diferentes. Quatro fundos de ações brasileiros, com abordagens que parecem distintas, costumam ter as mesmas oito ou dez empresas grandes no topo da carteira. Não é preguiça dos gestores. É que o universo de empresas líquidas na bolsa brasileira é pequeno, e todo mundo pesca no mesmo lago. 

Você acredita ter quatro apostas. Tem uma, repetida quatro vezes, pagando quatro taxas. 

2. O mesmo fator, com roupas diferentes. Fundo de crédito privado, debênture incentivada, CDB de banco médio, fundo de renda fixa de “estratégia ativa” e fundo imobiliário de papel. Cinco nomes, cinco prateleiras, cinco vendedores. Todos respondendo a juro e a risco de crédito no Brasil. 

Em um susto na economia brasileira, caem juntos. Cinco linhas no extrato, um movimento só. 

3. A mesma gestora, em produtos diferentes. Uma casa boa tem uma filosofia, e essa filosofia atravessa todos os fundos dela. 

Ter o multimercado, o fundo de ações e a previdência da mesma gestora não é diversificar entre estratégias. É triplicar a aposta em uma mesma visão de mundo. Se a leitura de cenário daquela casa estiver errada, ela estará errada nos três ao mesmo tempo. 

4. O fundo que copia o índice cobrando como se não copiasse. Existe uma categoria de fundo que se apresenta como ativo, mas cuja carteira, na prática, é muito parecida com o índice de referência. 

Você paga taxa de gestão ativa para receber, com pequenas variações, aquilo que um produto passivo entregaria por uma fração do custo. 


Como saber se sua carteira está diversificada: o teste dos 20 minutos 

Este exercício não precisa de planilha sofisticada nem de ninguém do mercado. Precisa do seu extrato e de uma folha de papel. 

Passo 1 · Liste tudo, com valores. Todos os investimentos financeiros. E também o valor de mercado dos imóveis e da sua participação em empresas, se houver. Patrimônio é patrimônio, esteja ou não numa corretora. 

Passo 2 · Marque um único fator de risco para cada linha. 

Fator O que costuma entrar 
Juro Brasil pós-fixado CDI, Tesouro Selic, fundos DI, CDB de liquidez diária 
Juro Brasil prefixado e inflação Prefixados, títulos IPCA+, fundos de renda fixa de prazo longo 
Crédito Brasil Debêntures, CRI, CRA, crédito privado, CDB de banco médio, FII de papel 
Bolsa Brasil Ações locais, fundos de ações, boa parte dos multimercados 
Bolsa global Ações internacionais, ETFs, BDRs, fundos internacionais 
Câmbio Dólar, ativos em moeda forte 
Imobiliário e real Imóveis, FIIs de tijolo, terras 

Duas regras para os casos difíceis: na dúvida entre dois fatores, escolha o que domina numa crise, e não o que aparece no nome do produto. E, se você não conseguir classificar um investimento nem depois de abrir o relatório mensal dele, isso já é uma resposta em si. 

Passo 3 · Some por fator e transforme em porcentagem. 

Passo 4 · Leia o resultado. 

O que você encontrou O que isso significa 
Um fator acima de 50% Não é uma carteira diversificada. É uma aposta com acessórios. 
Fatores globais somando menos de 10% Você está concentrado em um país, uma moeda e um regime tributário. 
Mais de três produtos no mesmo fator Existe custo pago em duplicidade, sem redução correspondente de risco. 
Imóveis e empresa própria somando mais de 60% Os investimentos financeiros não conseguem equilibrar o conjunto sozinhos, por melhores que sejam. 

Quase todo mundo que faz esse exercício pela primeira vez chega ao mesmo lugar: dois ou três fatores concentram a maior parte do patrimônio, e a quantidade de produtos não tinha nenhuma relação com isso. Por isso, é importante contar com uma metodologia validada, baseada em dezenas de artigos científicos. 


Quantos investimentos devo ter na carteira? 

Não existe número ideal. A pergunta melhor é quantos fatores de risco diferentes você tem, e em que proporção. 

Dá para estar bem diversificado com cinco investimentos, se eles responderem a coisas diferentes. E dá para estar mal diversificado com trinta, se todos responderem à mesma. 

Existe, porém, um teste simples de bom senso: se você não consegue explicar, em uma frase, por que tem determinado investimento e o que ele deveria fazer quando o cenário virar, ele não está diversificando nada. Está ocupando espaço. 


O excesso de diversificação de investimentos também custa 

O erro oposto existe e é bem menos discutido. 

Passado um certo ponto, cada produto novo adiciona quase nenhuma proteção. E adiciona, com certeza, três coisas: mais uma taxa, mais uma coisa para acompanhar e mais uma linha de imposto para controlar. 

Uma carteira com trinta produtos é impossível de monitorar de verdade. Você deixa de saber por que tem cada coisa. E é aí que a decisão passa a ser tomada por inércia: você mantém posições que não defenderia se tivesse que explicá-las hoje, só porque elas já estão ali. 

Vale registrar o outro lado, para que isso não vire regra automática. Patrimônios maiores costumam precisar de mais linhas por razões que nada têm a ver com diversificação de risco: limites de concentração por emissor, vencimentos escalonados no tempo, janelas de liquidez diferentes para necessidades diferentes. 

A diferença está na intenção. Doze investimentos escolhidos para cumprir doze funções distintas é desenho. Doze investimentos acumulados ao longo de dez anos, com quatro assessores diferentes, pode indicar risco. 


O que fazer com o resultado 

Se o teste apontou concentração, o primeiro conselho é o menos empolgante possível: não resolva tudo esta semana. 

Vender às pressas costuma custar mais caro do que a concentração que você quer corrigir. Você realiza imposto sem necessidade, sai num momento que não escolheu e ainda paga para recomprar depois. Trocar um erro por outro mais caro não é conserto. 

O caminho que funciona é mais lento. Parar de aumentar o fator que já está grande. Direcionar os aportes novos para o que ficou de fora. E tratar as posições maiores com um cronograma, e não com um clique. 

Leva mais tempo, e é justamente por isso que dá certo. A mesma paciência que faz o patrimônio crescer é a que permite reorganizá-lo sem estrago. 

E fica a pergunta que este texto queria mesmo provocar: se ninguém desenhou a sua carteira até aqui, quem deveria estar desenhando daqui para a frente? 


Onde a Moinhos Investimentos entra

Diferentemente da maioria das assessorias de investimentos do Brasil, somos remunerados por taxa. Isso muda uma coisa bem concreta quando o assunto é diversificação de investimentos: não ganhamos nada colocando mais um fundo na sua carteira, e não perdemos nada tirando três. 

Boa parte do nosso trabalho começa exatamente por esse mapa. Antes de falar em qualquer produto, olhamos o conjunto, porque quase sempre o problema não está em nenhuma linha isolada. 

E pensamos em décadas, não em trimestres. Uma carteira que atravessa vinte anos vale mais do que uma que ganha de todo mundo em um ano e obriga você a desistir no seguinte. 

Cada estratégia passa pelo nosso Comitê de Estratégia, um grupo de especialistas que avalia semanalmente nossa curadoria de investimentos, garante proximidade com as gestoras, e questiona novos produtos do mercado. 

Nem toda oportunidade merece um sim. Vários dos produtos que estão na sua carteira entraram porque ninguém tinha motivo para dizer não. 

Cuidar é decidir. 

Fale com um especialista → 


Perguntas frequentes 

O que é diversificação de investimentos? 

É distribuir o dinheiro entre investimentos que reagem de formas diferentes ao mesmo acontecimento. O objetivo não é ter muitos produtos, e sim evitar que tudo caia junto pelo mesmo motivo. 

Quantos investimentos devo ter na carteira? 

Não existe número ideal. O que importa é quantos fatores de risco diferentes você tem e em que proporção. Dá para estar bem diversificado com cinco e mal diversificado com trinta. 

Como sei se minha carteira está diversificada? 

Classifique cada investimento pelo fator de risco que realmente manda nele, some por fator e veja as porcentagens. Se um fator passar de 50%, você está concentrado. 

O que é correlação entre investimentos? 

É o quanto dois investimentos andam juntos. Correlação alta significa que sobem e caem ao mesmo tempo, o que reduz o benefício de ter os dois. 

Diversificar reduz a rentabilidade? 

Em muitos anos, sim, comparado a quem acertou a melhor escolha. Em compensação, reduz a chance de uma perda que não se recupera e de uma venda feita no pior momento. Em prazos longos, essa troca costuma compensar. 

Ter vários fundos da mesma gestora é ruim? 

Não é ruim, mas não é diversificação de investimentos. Uma gestora tem uma filosofia, e ela se reflete em todos os produtos da casa. 

Como saber a que fator de risco pertence um fundo multimercado? 

Abra o relatório mensal e veja onde está a maior parte da exposição. Se essa informação não estiver clara, isso já é um sinal a considerar. 


Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não constitui recomendação de investimento nem análise de valores mobiliários. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. 

Moinhos Investimentos: assessoria de investimentos em Porto Alegre e Lajeado. Fee-based desde 2020. 

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