Comitê de Estratégia – Carta Mensal: Março/26

“A volatilidade é o preço que você paga pelo retorno.” 

Howard Marks

Caro Cliente,

Assim como diz a música de Tom Jobim, coincidentemente as Águas de Março fecharam o verão e com ele nossas expectativas de quedas de juros, tanto no Brasil quanto no mundo. Parece que o inverno chegou mais cedo para a economia e os motivos precisam ser dissecados. 

Uma conjunção de fatores trouxe volatilidade ao mercado financeiro num ano que havia começado muito bem, mas que já se sabia que traria “pau e pedra”, ao menos no Brasil, mas não “o fim do caminho”. Volatilidade é consequência de incertezas, o mercado não gosta de incertezas. E ela reflete diretamente nos juros das economias, que como já escrevemos aqui, são usados para derivar o preço de todos os ativos do mercado. Vamos aos pontos. 


A Guerra 

No final de fevereiro, iniciou-se o conflito envolvendo EUA, Israel e Irã. A intensificação dos ataques trouxe consequências que vão além da região: o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo. 

O resultado imediato: o barril saltou de aproximadamente US$ 60 para mais de US$ 110. O petróleo influencia diretamente a formação de praticamente todos os preços globais, gerando inflação. O problema é que esse tipo de inflação, por choque de oferta, não responde a alta de juros. Bancos centrais subirem a taxa não vai aumentar a oferta de petróleo neste momento. 

Entretanto, neste cenário, nenhum banco central se sentiu encorajado a baixar juros, como o mercado esperava. Tanto que nosso Banco Central baixou 0,25%, quando o esperado era 0,50%. As expectativas também passaram a ser mais singelas para novas quedas e para o fim do ciclo. 

O que agrava a situação no Brasil é a irresponsabilidade fiscal do governo, que fez com que nossos juros reais chegassem aos mais altos do planeta e que as quedas tivessem que ser postergadas ao máximo. Como se diz no mercado, o governo pisa no acelerador fiscal e o BC precisa pisar no freio monetário. Um dia a conta chega e neste caso, fez com que entrássemos nesse conflito muito mal preparados. Resultado: juros mais altos e por mais tempo (já ouvimos isso tantas vezes…). 


Juros Altos por Mais Tempo 

Juro alto não é uma decisão isolada do Banco Central. É a consequência de um ambiente fiscal criado pelo governo. Gasto público é um acelerador de primeira ordem, e mesmo com o aumento de impostos e de arrecadação federal, o gasto aumentou de forma significativa frente ao PIB. 

Para as empresas, o efeito é direto: quem se financiou a taxas de juros mais baixas e precisou refinanciar ou alongar suas dívidas, se deparou com custos bem maiores. Quando o juro está em 15%, o custo final para as empresas acaba sendo bem maior do que isso, dado o risco que o credor embute para conceder o recurso. 

Imagine uma empresa tendo que se financiar a CDI+5% ou CDI+10% por um prazo mais longo do que o inicialmente planejado. Nem todas as empresas conseguem navegar por essas águas.  

Vimos isso em março: Raízen e Grupo Pão de Açúcar entraram com pedidos de recuperação, com dívidas de R$ 65 bilhões e R$ 4,5 bilhões, respectivamente. 

O efeito se espalha além das empresas em dificuldade. O risco moral (tradução do Moral Hazard, dos americanos) faz com que, em contextos de incerteza, até títulos de empresas saudáveis comecem a sofrer por desconfiança generalizada. Resultado prático: reprecificação de ativos de Renda Fixa e rentabilidade abaixo do esperado em fundos de crédito privado. 

Ainda sobre Renda Fixa, tivemos outro mês com forte abertura dos spreads de crédito, como em outubro de 2025. Isso influencia a rentabilidade dos títulos e fundos de crédito privado. Entretanto, depois de ocorrido, estes mesmos fundos passam a ter um “carrego” muito mais alto e o risco de novas desvalorizações diminui significativamente. Quem permanece posicionado tende a ser recompensado.  


Inteligência Artificial e a Renda Fixa 

Juros altos também fazem vítimas nos Estados Unidos. Mesmo em patamares bem mais civilizados, ainda são considerados elevados os juros praticados, e a soma a outros fatores também pode ser catastrófica. 

Em fevereiro, um relatório da Citrini Research levantou dúvidas sobre setores que se esperava serem beneficiados pela IA, especialmente empresas de software. 

O argumento: ferramentas de IA generativa já escrevem código e entregam programas prontos. Isso compromete a receita de empresas de software tradicionais que captaram altos investimentos via crédito privado. Fundos com esses títulos enfrentaram saques em massa e, como a porta de saída é estreita em ativos pouco líquidos, os preços caíram mesmo sem evidência de crise. 

Nossa leitura, após análise aprofundada: o problema é localizado e específico de algumas empresas. Não há sinal de crise de liquidez estrutural. Seguimos monitorando e atentos às oportunidades que possam surgir deste episódio. 


Ação e Reação 

Instintivamente, a primeira atitude que um investidor pode querer tomar, como quem ouve a música (é pau, é pedra, é o fim do caminho), é sair das posições que trazem esta volatilidade à carteira. Entretanto, são só as águas de março encerrando o verão. É um ciclo e teremos outros verões pela frente. Em um pensamento de segundo nível, podemos contrapor a essa ideia de saída abrupta com diversos argumentos, inclusive com dados. 

  1. A diversificação foi construída para este momento. Carteiras bem estruturadas caem significativamente menos do que ativos isolados. Não é retórica, é o resultado dos critérios estatísticos aplicados exaustivamente na construção da sua alocação. 

“Diante da incerteza, a diversificação não é fraqueza — é inteligência distribuída.” 
Autor desconhecido 

  1. Os gestores foram escolhidos justamente para períodos como este. Nosso trabalho é identificar equipes com critério e histórico para navegar em estresse. Uma vez dentro da alocação, confiamos nessa capacidade. 

  1. Guerras que começam rápido podem terminar da mesma forma. Quando isso acontece, os ativos mudam de patamar com a mesma velocidade. Quem saiu não captura a recuperação. Leia novamente Howard Marks: “A volatilidade é o preço que você paga pelo retorno.” 

  1. A ciência sobre timing é clara. Estudo do JP Morgan avaliando carteiras entre 2003 e 2022 mostra que estar posicionado em todos os dias gerou 9,8% ao ano nos EUA. Perder os 10 melhores dias, que costumam ocorrer logo após crises, reduz para 5,6% ao ano. Perdendo os 20 melhores dias, 2,9% ao ano. E a deterioração vai aumentando sucessivamente. 

  1. Cenários estressados, para quem tem maior apetite por risco, podem inclusive ser grandes geradores de oportunidades. Um disclaimer importante: obviamente aqui não estamos sugerindo dobrar a aposta, mas talvez, para quem tem perfil agressivo, pode ser um momento de fazer alguma realocação de nível de risco. 


É um resto de toco, é um pouco sozinho 
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã 
É um belo horizonte, é uma febre terça 
São as águas de março fechando o verão 
É a promessa de vida no teu coração 


Cuidar é decidir

Ciclos passam. O que permanece é a qualidade das decisões tomadas durante eles.
Seu assessor está disponível para conversar sempre que precisar, pelo site e pelo WhatsApp. 

Comitê de Alocação
Moinhos Investimentos


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Assessor de Investimentos. Economista pela USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM e MBA em Controladoria e Finanças pela FGV-Brasília. Certificações: CPA-10, ANCORD, CEA (ANBIMA).